277 – O que é ciência?

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241 – A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas S. Kuhn

A primeira vez que ouvi falar sobre esta obra foi no curso de Gravitação ministrada pelo professor João Zanetic do IFUSP. Obviamente, a atenção que dei para a citação foi mínima, por mais que o professor utilizasse as ideias presentes na obra constantemente ao longo de seu curso. Na época, ainda um estudante inocente frente à riqueza de conhecimento que inunda aquela Universidade, acho que me dava por satisfeito em ouvir as ideias principais de um livro e o assunto se encerrava por aí. Bom, acredito que esta foi a única vez que a obra de Kuhn se apresentaria para mim durante a graduação.

Depois de me formar não parei de dar aulas de física e somente após cinco anos que me embarquei na leitura de A estrutura das revoluções científicas. Maldita suficiência que me tomava em apenas ouvir terceiros falando sobre. Por que não fui folhear as páginas daquele livro? Os motivos podem ser inúmeros, então, deixa esta pergunta pra lá. Acabo de ler o livro e acho que agora entendo as frequentes citações de Zanetic sobre o livro. Obra fundamental para entender como a ciência vai se desenrolando ao longo da história, porém, mais que isso. Em se tratando de um/uma cientista ativo na academia, torna o/a cientista consciente de seu trabalho. Entenderá onde sua atividade se insere num contexto global. Meu trabalho é puramente técnico e estou visando somente à precisão de equipamentos? Minha pesquisa visa apenas corroborar com conceitos já fortemente estabelecidos? Minha atividade está no limite do conhecimento e depende de formulações totalmente inovadoras?

Em um cenário escolar, onde inflama meus questionamentos, o entendimento da obra de Kuhn pode propiciar uma visão mais flexível e dinâmico do conhecimento científico. Já explicarei o que entendo por flexível e dinâmico. Grande parte do material escolar de ciência acaba abordando os resultados que deram certo no passado, as fórmulas que “funcionam”, o sucesso dos cientistas em suas respectivas áreas. Pensar em ciência será para os jovens, portanto, encontrar a resposta correta. Algo estático, pronto e imutável. “Tenho que chegar naquela resposta”. Porém, esquecemos que a resposta correta está inserida em uma forma de pensar, vulnerável às condições de seu problema. A inteligência dos jovens está sendo direcionada em aceitar as determinadas condições para chegar ao resultado final. Porém, ao encarar um problema deveríamos, na verdade, saber estabelecer as perguntas. Atacar um problema por meio de perguntas é um exercício constante de reflexão. Fazer uma pergunta é uma conexão com o que você já sabe e o meio em que está inserido. Desta forma, ao encarar um problema atacando com indagações, os jovens vão procurando formas de justificar esses espaços. Ter a consciência de que as condições de um problema podem ser alterados é compreender que a ciência é flexível. Obviamente que, determinar as condições de um problema de acordo com nossas próprias vontades pode torná-la impraticável. Mas isto faz parte, não havendo problema nenhum se tivermos que voltar e reduzir as variáveis da situação! O que vale é pensar sobre! Acredito que a obra de Kuhn propicia essa visão da ciência como uma atividade em constante mudança.

Falando de forma bem simplista, Kuhn aborda o processo de substituição de um paradigma na ciência. Existe uma forma de enxergar o mundo que determina como a ciência deve funcionar, ou seja, como a pesquisa é direcionada e é responsável por selecionar o que faz ou não faz parte da atividade científica. Essa troca de paradigma é um processo lento e que depende da aceitação da comunidade científica. Não é porque se descobre uma solução para um problema aberto na ciência que esta resposta será aceita. À primeira vista isto pode parecer estranho, mas é preciso entender de antemão como o conhecimento vai se estruturando na comunidade científica.

São as mais diversas discussões que podemos realizar a partir do texto de Kuhn, mas minha ideia principal é deixar algumas indagações acerca da leitura do livro. Será possível utilizar a obra de Kuhn no ensino médio? Como proceder? Como inserir na escola a discussão acerca da natureza da produção do conhecimento científico? Como abordar a história da ciência? O que é ensinar história da ciência? O que um estudante que não irá se especializar na área científica deve saber sobre ciência?

E fica também o estímulo para outras leituras. Sei que Karl Popper é outro filósofo da ciência e que diverge em pontos com Thomas Kuhn. Popper é o próximo!