241 – A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas S. Kuhn

A primeira vez que ouvi falar sobre esta obra foi no curso de Gravitação ministrada pelo professor João Zanetic do IFUSP. Obviamente, a atenção que dei para a citação foi mínima, por mais que o professor utilizasse as ideias presentes na obra constantemente ao longo de seu curso. Na época, ainda um estudante inocente frente à riqueza de conhecimento que inunda aquela Universidade, acho que me dava por satisfeito em ouvir as ideias principais de um livro e o assunto se encerrava por aí. Bom, acredito que esta foi a única vez que a obra de Kuhn se apresentaria para mim durante a graduação.

Depois de me formar não parei de dar aulas de física e somente após cinco anos que me embarquei na leitura de A estrutura das revoluções científicas. Maldita suficiência que me tomava em apenas ouvir terceiros falando sobre. Por que não fui folhear as páginas daquele livro? Os motivos podem ser inúmeros, então, deixa esta pergunta pra lá. Acabo de ler o livro e acho que agora entendo as frequentes citações de Zanetic sobre o livro. Obra fundamental para entender como a ciência vai se desenrolando ao longo da história, porém, mais que isso. Em se tratando de um/uma cientista ativo na academia, torna o/a cientista consciente de seu trabalho. Entenderá onde sua atividade se insere num contexto global. Meu trabalho é puramente técnico e estou visando somente à precisão de equipamentos? Minha pesquisa visa apenas corroborar com conceitos já fortemente estabelecidos? Minha atividade está no limite do conhecimento e depende de formulações totalmente inovadoras?

Em um cenário escolar, onde inflama meus questionamentos, o entendimento da obra de Kuhn pode propiciar uma visão mais flexível e dinâmico do conhecimento científico. Já explicarei o que entendo por flexível e dinâmico. Grande parte do material escolar de ciência acaba abordando os resultados que deram certo no passado, as fórmulas que “funcionam”, o sucesso dos cientistas em suas respectivas áreas. Pensar em ciência será para os jovens, portanto, encontrar a resposta correta. Algo estático, pronto e imutável. “Tenho que chegar naquela resposta”. Porém, esquecemos que a resposta correta está inserida em uma forma de pensar, vulnerável às condições de seu problema. A inteligência dos jovens está sendo direcionada em aceitar as determinadas condições para chegar ao resultado final. Porém, ao encarar um problema deveríamos, na verdade, saber estabelecer as perguntas. Atacar um problema por meio de perguntas é um exercício constante de reflexão. Fazer uma pergunta é uma conexão com o que você já sabe e o meio em que está inserido. Desta forma, ao encarar um problema atacando com indagações, os jovens vão procurando formas de justificar esses espaços. Ter a consciência de que as condições de um problema podem ser alterados é compreender que a ciência é flexível. Obviamente que, determinar as condições de um problema de acordo com nossas próprias vontades pode torná-la impraticável. Mas isto faz parte, não havendo problema nenhum se tivermos que voltar e reduzir as variáveis da situação! O que vale é pensar sobre! Acredito que a obra de Kuhn propicia essa visão da ciência como uma atividade em constante mudança.

Falando de forma bem simplista, Kuhn aborda o processo de substituição de um paradigma na ciência. Existe uma forma de enxergar o mundo que determina como a ciência deve funcionar, ou seja, como a pesquisa é direcionada e é responsável por selecionar o que faz ou não faz parte da atividade científica. Essa troca de paradigma é um processo lento e que depende da aceitação da comunidade científica. Não é porque se descobre uma solução para um problema aberto na ciência que esta resposta será aceita. À primeira vista isto pode parecer estranho, mas é preciso entender de antemão como o conhecimento vai se estruturando na comunidade científica.

São as mais diversas discussões que podemos realizar a partir do texto de Kuhn, mas minha ideia principal é deixar algumas indagações acerca da leitura do livro. Será possível utilizar a obra de Kuhn no ensino médio? Como proceder? Como inserir na escola a discussão acerca da natureza da produção do conhecimento científico? Como abordar a história da ciência? O que é ensinar história da ciência? O que um estudante que não irá se especializar na área científica deve saber sobre ciência?

E fica também o estímulo para outras leituras. Sei que Karl Popper é outro filósofo da ciência e que diverge em pontos com Thomas Kuhn. Popper é o próximo!

 

202 – A Fundação [sem spoiler]

Composta de diversos livros, Isaac Asimov constrói uma ficção científica em um tempo que nossa galáxia está totalmente habitada. Há um Império administrado pelo planeta Trantor que detém o poder sobre todos os demais. Prevendo a queda deste Império e consequentemente uma galáxia imersa em pleno caos e ignorância, Hari Seldon, o protagonista da ficção, cria uma Fundação com a responsabilidade de escrever uma enciclopédia galáctica, de forma que o conhecimento seja preservado. Seldon prevê a queda do Império assim como outras crises no controle da Galáxia, utilizando para isso conhecimento da psico-história, uma espécia de mistura de matemática com sociologia. Nesta área do conhecimento, Seldon analisa matematicamente o comportamento das massas, sendo, entretanto, inútil analisar o indivíduo devido a sua imprevisibilidade.

A ficção é recheada de elementos futuristas como equipamentos nucleares, elevadores anti gravidade, planetas repletos de tecnologias, como também, retrata planetas na periferia do Império em modo de vida rústico. A disputa pelo poder é uma trajetória constante que promove conflitos entre os governantes da época.

Um livro que atrai os olhares científicos como também aqueles que enxergam a sociedade como um organismo vivo que se destrói e se constrói pelos indivíduos que o compõe.

Terminei o segundo livro da trilogia e há pouco iniciarei o último!

A Fundação

105 – Rivalidades Produtivas – Michael White

Olá, gostaria de escrever brevemente sobre um livro em que a leitura ainda se desata. Rivalidades produtivas de Michael White descreve episódios de vários “conflitos” em temas da ciência que resultaram em certos “progressos” na pesquisa. Em alguns casos, a disputa científica também pode ser considerada como um freio no desenvolvimento, uma vez que está também atrelada à vaidade e protecionismo pessoais.

Li alguns capítulos de forma independe, como a disputa entre Newton e Leibniz em relação ao cálculo e a corrida armamentista para o desenvolvimento da bomba atômica entre os Aliados e o Eixo. Outros capítulos abordam outros conflitos, como Lavoisier e Priestley, Darwin e Owen, Thomas Edison e Nikola Tesla, entre outras disputas. A contextualização que o livro traz se mostrou, pelo menos para mim, um excelente recurso no preparo das aulas para o Ensino Médio, pois aborda o contexto histórico, desfazendo assim o ensino de física com abordagem puramente tecnicista. O aspecto histórico abstrai o olhar direcionado ao conteúdo, permitindo abertura a novas questões como, qual o objetivo da ciência? A quem ela serve? Quem impulsiona a ciência? Ou o que a ciência impulsiona?

Mesmo estas questões acabam por criar motivação do conteúdo em si. Por exemplo, ao se falar no desenvolvimento dos modelos atômicos e os experimentos envolvidos, os fatos históricos vão acompanhando o conteúdo específico. E assim, novamente, o conteúdo específico se alimenta da tensão que os acontecimentos históricos vão apresentando.

No final, acredito que tudo é relação e, quanto mais conexões permitimos que os alunos façam dentro da sala de aula, mais complexo se tornará seu pensamento e sua crítica frente ao conhecimento.

Gostaria de deixar aqui um pequeno desabafo atrelado a uma leve sugestão para o ensino de ciências. O sistema apostilado está estruturado num formato que não necessariamente foi pensado pelo professor. Dar aula é em si um respeito as habilidades e experiência do professor. Portanto, é natural e permitido, que um professor traga para dentro da sala de aula seus gostos e conhecimentos gerais que possam ser usados como facilitadores no comunicar com os discentes. Acredito, então, que o professor deve manter-se em contato com outros livros e artigos, além de apostilas e livros didáticos, de forma que indiretamente os alunos tenham por lido Stephen Hawking, Michael White, Brian Greene, Isaac Asimov, Physics Today, Revista Ciência Hoje, entre outros, mesmo sem saber. Ensinar é também um processo de aprendizagem para aquele que ensina.

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